segunda-feira, 16 de setembro de 2019

The democratic legitimacy, the abstention legitimacy and the others.
Legitimidades: 
a democrática, a da abstenção e outras.


Por estas latitudes, o Verão deste ano já passou, encaminhando-nos presentemente para as longitudes do Zodíaco dominadas pelo signo Virgem, num ano que os Chineses alegam ser o do Porco. 

Dizem que Virgem e Balança serão as forças dominantes destes dois meses. Assim, é natural que filas para a consulta da Bola de Cristal se estejam já a formar, para saber o que de importante acontecerá sob a influência de Libra (em Outubro).

Todos os dias acontecem coisas importantes mas algumas costumam merecer especial atenção na “precessão” dos acontecimentos que nos envolvem, ficando como marcos de referência na vida colectiva. Um (mais um) desses marcos será a nova eleição do Parlamento Nacional: as conhecidas Eleições Legislativas. 


Esse é período de  “jogo” social especialmente activo. O antecipar como se desenrolará preencherá bom espaço dos mídia mas é coisa que interessa mais a quem foi “convocado para a partida”, a quem, de uma forma ou de outra, está encarregue da organização e da logística do evento, às entidades que dirigem e produzem o “espectáculo” e aos outros do costume.


Pouco nos motiva, aqui, ir por esse caminho de previsão de resultados do novo evento onde, provavelmente, haverá chuva no molhado. Não nos interessa também determinar quando sairemos da “Era de Peixes”e entraremos na “Era de Aquário”. Mas interessa-nos um pouco conhecer o desvio que tem existido entre a agulha magnética da retórica daqueles que governam o rectângulo Luso e o rumo a que sua praxis tem levado o país.

Bem sabemos que o caminho ideal para atingir um determinado destino poucas vezes é rectilíneo; sabemos que os rumos se vão ajustando em função das condições que vão ocorrendo. No mar o caminho tem de compaginar com a ondulação, com os ventos, com a configuração do navio e até com a possibilidade de aparecimento de piratas. Mas toda essa variação e tácticas devem servir para atingir o objectivo planeado. Partir com destino a um determinado ponto e chegar a outro claramente afastado é processo que não faz parte da navegação na geografia … nem é suposto que aconteça na política. Poucos aceitam embarcar em navio que de forma frequente não chega ao destino anunciado.


Um dos indicadores do desvio de rumo nas coisas da governação democrática popular é o nível da abstenção eleitoral e o nível dos votos em branco e nulos. Os “Comandantes” (ou candidatos a) fazem por anunciar destinos magníficos mas, durante viagem de quatro anos, parecem preocupar-se pouco com o dirigir-se para o anunciado. E, nas viagens que se seguem umas às outras, indignam-se por vezes com a falta de fé dos possíveis “clientes” e até atribuem conotação moral negativa àqueles que “não compram acções da companhia ou bilhete para nova viagem”. Esta falta de “Fé”, numa democracia representativa, costuma manifestar-se primeiramente pela abstenção eleitoral e pelos voto brancos e nulos.




O fenómeno de afastamento dos eleitores tem aumentado de forma consistente e notória nos últimos anos em Portugal. Tem sido um quase contínuo. Estimar com bom grau de precisão as razões deste afastamento é algo que parece não exigir doutoramento em ciência politica. E estimar como e quando este fenómeno incomoda os concorrentes partidários também parece algo bem mais acessível do que a ciência aeroespacial.


Se projectarmos esta tendência até um futuro não muito longínquo será que não encontraremos um cenário onde votarão apenas aqueles que se submeterem ao processo eleitoral (votando em si próprios), aqueles a quem eles garantiram benefícios e aqueles a quem eles devem a sua nomeação partidária? Num cenário desses será que a Constituição permitirá, e o actual regime legal acomodará, um governo”maioritário” que apenas represente uma minúscula percentagem de Portugueses? Será que um governo que, por exemplo, represente 10% dos Portugueses, é um governo democraticamente legítimo?

A legitimidade é um conceito associado a consentimento. Votar não costuma significar orientar a politica mas consentir que um grupo a oriente. Não votar, ou votar em branco, tem usualmente outro significado que anda mais próximo da indiferença, da consciência da impotência para alterar rumo, ou do protesto.


É natural que em cada regime político ou de convivência humana algum encanto dos propósitos originais se perca com o tempo. Essa perca é tanto mais rápida e acentuada quanto maior for a distância entre a “representação teatral”, que é feita na apresentação das “Verdades Absolutas” originais, e a realidade “imutável” subjacente – a da natureza humana. A democracia popular e representativa faz uso de boa dose de teatralidade. Essas “representações” e propósitos são úteis para a convivência pacífica mas, como quase tudo na natureza, tem também um ciclo de vida. As necessidades biológicas humanas vão-se mantendo mas as perspectivas sobre o sentido da existência podem ter de se ajustar a cada Era. 
Cada geração tem os seus “actos de fé” (de pendor teológico, metafísico, moral, económico, tecnológico ou outro, consoante a Era) e a “Teologia Politica” vigente conserva-se não se lhes opondo de forma perceptível. Segundo teórico famoso da área dos assuntos políticos e
jurídicos “Todos os significativos conceitos da moderna teoria do Estado são conceitos teológicos secularizados”

Talvez por essa razão o ir apenas ajustando a “Liturgia” dos processos de legitimação do poder pode não ser suficiente para manter o “credo”. Se os “apóstolos” se agarrarem a privilégios da função ou da posição e atrasarem os ciclos da renovação natural, especialmente da renovação de esperança realista, pode o “culto” esfumar-se e as “celebrações” de legitimação ou “glorificação” ficarem despovoadas.


Mas será que o Poder necessita de legitimidade? Legitimidades existiram muitas. Regimes monárquicos e republicanos, constitucionalistas, comunistas, fascistas e democratas não se coibiram de construir discurso que incutisse a ideia de legitimidade da sua posição e da sua acção. Uns basearam o seu direito a dirigir e governar em mandato divinamente concedido, outros em mandato popular e outros em outras construções teóricas susceptíveis de aceitação do povo. E será a legitimidade importante na governação? Parece-nos que sim na medida em que governo consentido pode ser mais suave, mais estável e mais eficaz que ditadura ou governo tiranicamente imposto e tiranicamente mantido.

Então onde estará o problema de uma democracia representativa onde a maioria dos potenciais eleitores desistem de se fazer representar? O problema poderá não existir (para os partidos políticos da governação) se os eleitores não aderirem a oposição activa ao “Establishment”. E usualmente não aderem enquanto tiverem percepção de suficiência de condições de vida. Se essa percepção de suficiência se altera, a predisposição para a mudança segue o mesmo caminho. É em cenário desses que os partidos políticos “do arco” manifestam alarme, tocando os sinos de alerta para o perigo do populismo, xenofobismo, extremismo e de outros “ismos” - sempre que aparece alguém a disputar-lhes o domínio "legitimo". O “Establishment” e seus partidos aceitam e patrocinam aquilo que está estabelecido e lhes serve; nunca o contrário. É a lei a auto-preservação para os que estão bem. O contrário resulta da necessidade de mudança efectiva para os que não estão. Quanto ao sentido de potencial mudança naturalmente uns não estarão de acordo com os outros. Por isso é frequente ouvir-se dizer que democracia (legítima) e escassez de meios não convivem bem.


Quando a proporção das elites dominantes relativamente à do povo cai e a percepção de desigualdade aumenta para níveis “oceânicos”, a imagem de regime próximo a oligarquia emerge e a de legitimidade democrática tende a esfumar-se. Mas mesmo assim o “Establishment” tenderá a manter-se. Para isso poderá recorrer a mecanismos de legitimação (aceitação pública) que podem até passar pelo voto "premiado", pelo voto obrigatório/compulsório ou até pelo voto electrónico controlado ou não por Inteligência Artificial como nos caminhos da Internet. Esses mecanismos podem disfarçar o objectivo remoto mas tem também o seu prazo de validade.


Para aqueles que não se revêem nem beneficiam de determinadas formas de governação da coisa pública, será que a sua participação em eleições configura ofensa contra a consciência que tem da sua real situação ou posição? Será que eventual escolha entre dois males, um maior que o outro, configura um posicionamento moral relativamente à governação ou poderá configurar uma opção táctica de circunstância? Sabe-se que raramente um poder, qualquer que ele seja, põe à consideração dos seus subordinados a manutenção do “status quo”. Mas pode por à consideração deles a escolha de quem o administra. Um governo democrático como o Português tem um estatuto não muito afastado de administrador, uma vez que boa parte dos instrumentos com que o poder se exerce (moeda, finança, concessões e monopólios de cariz económico ou vital estratégico) resvalaram para a esfera privada ou transnacional. Num cenário destes um partido político pode prometer o que quiser mas pode estar impedido (ou desmotivado) para fazer o que prometeu. Para que cumpra é necessária tensão e sem tensão não há democracia.
Assim sendo, qual a melhor opção para um comum popular num processo eleitoral como o que se avizinha? A participação? A abstenção? Ou o voto branco ou nulo (voto de protesto)? O Mundo dos nossos dias, superpovoado, está dependente de complexas teias e tecnologias e essas estão hiper integradas em geografias e poderes transnacionais. Uma mudança de politica importante num particular ponto dessa geografia pode ter consequências imensas na humanidade. Por essa razão uma mudança de poder localizada será naturalmente alvo de “anticorpos” e terá poucas hipóteses de sobrevivência prolongada. E se sobreviver, pode induzir roturas no funcionamento global das “máquinas” que sustentam a vida, com efeitos catastróficos para aqueles que estiverem no fim da linha. Mudar é possível mas não mais segundo a lógica dos Estados autónomos e auto-suficientes. Por essa razão as dinâmicas de poder (e as alternativas) que existiram em boa parte dos séc. XIX e XX talvez já não sirvam de modelo para o que acontece nos nossos dias. Mudar é possível desde que com consciência daquilo que é possível.


Assim, segundo opinião de muitos, aqueles votantes que entendam ser necessário mudar de cenário ou actores políticos, é necessária esperança realista e tensão. Mas essa esperança não é apenas um condimento moral ou rebuçado doce para ser chupado numa campanha eleitoral. A esperança tem de gerar acção e esta tem de gerar tensão. Sem tensão não há democracia. O deficit dessa “pressão” (ou a sua expressão controlada) é terreno propício à apatia de uns e disfarçada oligarquia dirigida por outros. Uma das formas de gerar e manter essa “democrática” tensão é participando nas eleições, votando, usando tácticas que garantam a sua existência ou permanência.


A legitimidade é sempre mais facilmente adquirida por um líder com um ethos protector e moralmente reconhecido. Para a maioria dos Portugueses, Açorianos e Micaelenses, António Costa, Vasco Cordeiro e José M. Bolieiro tem dotes que facilmente levam à confiança, quer pela figura, quer pela fluência e estética de sua retórica, quer pela sua inteligência, ar paternalista, experiência, passado de governação ou pela sua origem. Uma vez eleitos, esses dotes são usualmente postos ao serviço do equilíbrio das forças que confluem na governação, umas mais fortes ou legítimas do que outras. Para bem da maioria dos eleitores, para que a sua "força" tenha consequências e a governação democrática funcione é necessária tensão e a sua intensidade, pelo menos em parte, pode decorrer de resultado da sua participação nos actos eleitorais mais relevantes que se vão seguindo. Avaliar como essa tensão melhor se deve aplicar decorre do juizo de cada um. Esperar que a providencia envie solução para os “dramas” quotidianos é pouco; muito pouco.

Publicado no Correio dos Açores de 14/9/2019
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Voter turnout in the Azores for the election of National Parliament – 2019

Realizado o acto eleitoral de 6 de Outubro de 2019, o gráfico actualizado da participação eleitoral fica como a seguir se apresenta:

Se os votos em branco e nulos cativassem lugares no Parlamento, 5 ou 6 lugares teriam ficado vazios. E se  essa regra fosse adoptada, não seria dificil de antever uma redução substâncial da abstenção e a eleição de grande parte do Parlamento com lugares vazios (resultantes dos votos brancos e nulos).

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Nos Açores o distanciamento entre eleitores e eleitos foi bem maior do que o do continente, conforme mostra o quadro abaixo:

sexta-feira, 31 de maio de 2019

European Parliament Elections. 2019. Trusting the distant and the inscrutable.
Evolução dos Euro-confiantes

Eleições para o Parlamento Europeu - 2019

A Comunidade Europeia tem estado na ordem do dia da comunicação publicada no último mês. As eleições para o Parlamento Europeu ocorreram há dias e, por uma ou outra razão, é levantada a poeira sobre a Europa que temos, a que queremos e a representação possível no seu núcleo governativo. Contudo, uma coisa é a União Europeia e outra são as eleições para o Parlamento Europeu. A aderência à ideia da União é generalizada mas a aderência à sua forma de governação e de representação não é tanto.

Os pontos de adesão à ideia da Europa estão à volta da noção de prosperidade, de paz, de relevância, de união efectiva e de segurança. Quem sentir ter isto, em maior ou menor dose, tenta defendê-lo. Quem não o sentir, talvez tente alterar algo … ou se afaste à espera de melhores dias. 

Os pontos de afastamento relativamente ao governo da União têm-se centrado à volta da deriva concentracionista do poder e privilégios para uns poucos, da formação de cliques tecnocratas dirigentes pouco escrutinadas pela representação do eleitorado (Parlamento), da perca da prosperidade que foi apercebida na última década do séc. XXI e da falta de rumo capaz de incutir confiança num forte posicionamento da União para, no mundo global, defender aquilo que conquistou. 

De facto foram eleições mas essas foram para um Parlamento, apenas; não para um governo nem sequer para um Colégio Eleitoral. Este parlamento, ao contrário do nacional, não tem iniciativa legislativa nem tem controle na formação dos órgãos que, em boa parte, definem e conduzem a politica europeia: o Conselho e a Comissão. Neste Parlamento genericamente vota-se aquilo que a Comissão propõe e esta ultima segue, genericamente, as linhas definidas pelo Conselho. Assim, os parlamentares estão resumidamente limitados ao voto, seguindo linhas da sua família partidária, e a acção de informadores e de “lobby” das forças com relevância politica para partidos que os propuseram. O poder de escrutínio do Parlamento relativamente à orientação e acção da Comissão é limitado e limitados parecem também ser os laços de ligação dos parlamentares aos eleitores.

Nas Eleições para o Parlamento Europeu não se elege líder ou equipa dirigente do Conselho ou da Comissão nem se valida um programa de acção para cinco anos. Por essa razão estas eleições têm pouca influência na determinação das políticas que serão seguidas e essa pouca influência determina a sua relevância para os eleitores. Estas eleições podem ser um acto que pouco mais além vai da promoção da aceitação de 21/751 indivíduos que irão, durante meia década, ratificar decisões tomadas por outros. De uma representação democrática esperar-se-ia um pouco mais do que isto.

Por estas razões, de Norte a Sul, os Europeus sentiram ao longo dos anos esfriar-se a sua vontade de participação nestes processos. Por vezes ouvia-se alguém questionar: “será que um Parlamento Europeu eleito por 90% dos eleitores teria produzido uma União diferente daquela a que estivesse associado um Parlamento eleito por 10%?” As primeiras eleições tiveram maior adesão mas os resultados da acção da União não encorajaram a aumentá-la. Desceu durante três décadas. A inflexão na afluência às urnas do passado dia 26 de Maio pareceu ser mais uma reacção à ameaça de desmoronamento provocada pelo Brexit do que uma validação da governação e rumo da União.

Os eleitores para afluírem a um acto eleitoral precisam de sentir confiança e afinidade com uma figura ou com uma proposta de rumo. Essa figura deverá dar sinais de capacidade de contribuir para esse rumo no contexto em que será inserida. Se esse contexto não lhe proporcionar espaço para tal, mesmo que ela tenha reconhecidos dotes políticos e técnicos, a sua acção será mínima e a relevância da sua eleição também o será.

Para além das questões da representatividade, existem questões de afinidade e de proporcionalidade que influenciam a decisão de ir ou não votar. A afinidade quando não existe pode ser criada e mantida. No caso dos Açores, arriscaria a afirmar que a afinidade entre eleitores e Euro-eleitos tem sido mínima e que esmagadora maioria dos Açorianos não sabe quem foram os Deputados Europeus do último mandato e menos ainda aquilo que fizeram. E até parece que alguns desses Deputados sentem pouco à vontade em aparecer (directamente) junto dos eleitores, tal é a distância que vai daquilo que gostariam de dizer que fazem e aquilo que é, para os votantes, o retorno útil da sua acção. 

Acresce à questão da representatividade a questão da proporcionalidade. É bem preferível ter um representante genial do que ter um comum. Contudo um representante genial só alinhará e será útil num projecto se tiver um retorno pessoal compatível com os resultados que conquistar. Essa especial capacidade será confirmada pelos resultados da sua acção e não apenas pelo seu Ethos ou currículo prévio. Pode-se ser um génio no ciclismo, mas sem resultados no futebol não se pode ser considerado um génio no futebol. É verdade que o povo gosta de “Icones” mas é necessário que, de alguma forma, se reveja neles. Se duvidar das suas intenções, pode ser levado a ignorá-los ou ser tentado a substitui-los. Por isso, se não existir alguma proximidade entre o “génio” (eleito) e o representado (eleitor) a afinidade pode ser improvável e a representatividade impossível. Já dizia a outra: “antes quero burro que me carregue do que cavalo que me derrube”.

O Parlamento Europeu parece tratar os seus membros como geniais, qualquer que seja a opinião dos eleitores. Quem com privilégios é tratado usualmente retribui o trato. E quem atribui privilégios é o P.E e não os eleitores. Um Parlamentar Europeu beneficia durante o seu mandato de uma remuneração 3 vezes superior à de um Parlamentar nacional Português e 25 vezes a de que um trabalhador de salário mínimo em Portugal. E estará por lá 5 anos a correr em faixa rápida. A diferença de proporcionalidade aqui é clara. Se essa magna retribuição fosse consequência de genialidade de acção, com consequências positivas tangíveis para os eleitores, estas seriam por eles aplaudidas. Se os eleitos as produzissem, chegar-se-iam eles à frente para as anunciar e receberem consagração. Se não se tem chegado à frente é porque tem duvidado que o aplauso ocorra … e não havendo aplauso, nem tão pouco adesão aos actos eleitorais, estamos conversados sobre o assunto. Desta forma a probabilidade de o eleitor achar que os candidatos ao Parlamento correm primeiramente atrás de benefício próprio, ignorando os interesses do cidadão comum, pode ser grande.

Uma das provas maiores desta percepção de falta de afinidade e proporcionalidade está nos resultados das últimas eleições nos Açores: apenas 18.7% dos eleitores se deram ao trabalho de votar; e dos votos colocados quase 10% foram brancos ou nulos. Que legitimidade democrática pode ter um representante, por maior valor pessoal que ele tenha, que apenas recebeu o apoio de uma fracção destes votantes?

Apesar destas e outras “anomalias” (abstenção incluída) poucos querem que a Europa volte a ser uma massa fragmentada de Estados, propensa a frequentes conflitos bélicos ou pasto fácil para os apetites de outras potências estabelecidas ou emergentes no planeta. Europa sim, mas uma Europa forte cujo serviço seja percepcionado como dirigido a uma clara maioria dos Europeus e não apenas umas quantas corporações globais, a uma clique tecnocrática central ou a grupos partidários dominantes. E mesmo que não seja esperada especial consequência directa para estas eleições, ao menos que o período seja aproveitado por quem detêm capacidade, poder e meios para tal, para reflectir, acertar rumo e imprimir andamento adequado às circunstâncias e expectativas dos eleitores Europeus.

M. Mota Borges
Ponta Delgada, 28 de Maio de 2019
Publicado no Correio dos Açores a 30/5/2019

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Primeira Travessia Aérea do Atlântico 
com escala nos Açores
First Flight over the Atlântic Ocean and Azores - May 1919
Centenário (Maio de 1919 – Maio de 2019)

Esta é uma semana de comemoração dum feito que teve eco mundial e que colocou, uma vez mais, o arquipélago Açoriano no centro do palco das grandes realizações do Mundo Ocidental. No já longínquo ano de 1919 chegaram aos Açores os primeiros aviões vindos da América do Norte por via aérea, naquela que foi a primeira travessia aérea do Atlântico. Um par de anos antes as Forças Armadas Americanas já haviam deslocado algumas pequenas aeronaves para Ponta Delgada, mas que haviam sido transportadas por via marítima.


Enquanto o vento foi a força motora dos navios, o que aconteceu durante séculos, os Açores foram o ponto de apoio necessário nas rotas marítimas pelo Atlântico. Para regressar da Índia, África e da América do Sul ou Central, os ventos e correntes obrigavam a passar pelos Açores. Nestas ilhas reagrupavam-se as frotas, reparavam-se os navios e reabastecia-se. Quem controlasse este entreposto oceânico controlava boa parte da exploração colonial ultramarina. Portugal dificilmente teria sido a potência que foi sem este arquipélago.
O advento da motorização a vapor tornou a navegação marítima, durante o séc. XIX, menos dependente das forças atmosféricas e aumentou a autonomia dos navios. Assim este arquipélago foi perdendo a exclusividade de ponto de passagem.

Na viragem do séc. XIX para o XX o mundo acelerou o passo, em muitos sentidos, e os Açores não ficaram de fora. O petróleo passou a ser explorado e refinado em grande escala e passou a alimentar novas máquinas. Estas, mais versáteis e leves que as a vapor, foram rapidamente aproveitadas por quem da força delas precisava. Foi nesse contexto que os Americanos Irmãos Wright motorizaram o seu planador e fizeram os primeiros voos na primeira década do séc. XX. E foi nesse contexto que o Francês Louis Bleriot construiu o planador motorizado que atravessou o Canal da Mancha em  1909.

Entretanto a Primeira Grande Guerra eclodiu e estas novas curiosidades (ou excentricidades) tecnológicas passaram a ser experimentadas para fins bélicos. Estes “passarões” podiam passar sobre fronteiras sem serem impedidos por qualquer controle, podiam espiar território inimigo e podiam até descarregar explosivos onde mais doesse ao adversário. Franceses, Germânicos, Britânicos e, um pouco mais tarde, Americanos rapidamente transformaram a curiosidade voadora em arma de guerra.
Foi nesse contexto que apareceram estes aviões que atravessaram o Atlântico pela primeira vez, os Navy Curtiss (NC).

O desenvolvimento destes aviões foi encomendado pela Marinha Americana à Custiss Engineering em 1917, ainda durante a Guerra. Era pretendido um avião patrulha anti-submarina, com capacidade de “longo curso”, que ajudasse a conter a ameaça Germânica. Tratava-se do maior e mais potente avião produzido até à data, com 4 motores Liberty V12 de 400 cv (1600 cv no total) e com capacidade de elevação de aproximadamente 12 toneladas. Apesar das diligências feitas o avião chegou tarde. O primeiro voo aconteceu em Outubro de 1918 e o Armistício (fim da guerra) foi assinado no mês seguinte. Assim ficaram estes quatro grandes e musculados passarões sem função ou propósito imediato. Contudo aquilo que não serve para a guerra pode servir para outra coisa. Removendo armamento e munições da aeronave podia-se aumentar grandemente a capacidade dos respectivos reservatórios de combustível e assim aumentar na mesma proporção a autonomia ou raio de acção da aeronave. Aumentando o raio de acção, o Atlântico Norte era a tentação. Mas o Atlântico era mais extenso que essa ambição. A forma de o atravessar era aos saltos, minimizando as distâncias entre cada ponto de abastecimento necessário. Para fazer a grande travessia era necessário reabastecimento e descanso a meio do temperamental Atlântico. Por sinal por aí estava, novamente, o incontornável arquipélago dos Açores, que poderia servir de ponto de refrescamento de homens e máquinas. E por este arquipélago ainda mexia uma Base Militar Americana instalada durante Primeira Grande Guerra.

Assim se lançaram pelos céus rumo à Europa 3 dos 4 Navy Curtiss (NC) fabricados. O maior troço dos vários a percorrer era a ligação da América aos Açores mas estes aviões apenas conseguiam cobrir a ligação mais curta: Terra-Nova – Açores.
A viagem teve os imprevistos do costume, com o nevoeiro no topo das dificuldades. E foi esse nevoeiro que obrigou à amaragem em mar aberto ao NC-1 e ao NC-3. O NC-4 encontrou uma aberta, visualizou o Faial e lá amarou em águas mais calmas e sem sofrer danos.
Esta aventura não foi um empreendimento privado, com as naturais limitações de recursos. Foi uma afirmação dum Estado que tinha ambições de ombrear com a aeronáutica Europeia. Assim a cobertura mediática que foi dada ao evento não tinha precedentes na aviação. A partida da esquadrilha da Terra-Nova, a passagem pelos Açores e Lisboa e a chegada ao Reino Unido povoaram as capas dos jornais da época. E nessa cobertura noticiosa os Açores estiveram sempre presentes.

Com esta aventura o valor da posição das ilhas Açorianas renovou-se. Já não era um local de passagem obrigatória para navios no Atlântico mas passara a sê-lo para os aviões. Assim, deter a capacidade de decidir, directa ou indirectamente, quem podia ou não fazer escala nos Açores, determinava quem dominaria o Atlântico Norte no futuro que se seguiria. E assim foi dali a duas décadas, no decorrer da Segunda Guerra Mundial. Não fosse a instalação da Base Aérea Anglo-Americana nas Lajes e a Batalha do Atlântico poderia ter tido outro desfecho. E se esta tivesse tido um resultado diferente, diferente também poderia ter sido o resultado da Guerra. No limite poderá afirmar-se que a ocupação dos Açores não foi condição suficiente para ditar o vencedor da Guerra mas foi condição necessária. E foram as concessões de escala nos Açores que em boa parte ditaram quem dominaria a aeronáutica civil nos anos que se seguiram.

M. Mota Borges
Ponta Delgada, 19/5/2019
Publicado no Jornal Correio dos Açores